Parte 1 – Microbiota Intestinal


O corpo humano tem cerca de 10 trilhões de células. Células humanas, quero dizer. Pois cada um de nós carrega cerca de 100 trilhões de bactérias. Ou seja, para cada célula nossa, há DEZ células bacterianas. Não seria, portanto, errado se definíssemos a nós mesmos como uma grande colônia bacteriana ambulante. A maioria dessas bactérias encontra-se em nosso intestino. Essas bactérias evoluíram junto conosco – precisamos delas para viver. Elas nos ajudam a digerir nossa comida, ajudam a manter o número de bactérias patogênicas sob controle, e cumprem um sem número de outras funções (ativação de hormônios, produção de neurotransmissores, e por aí vai). Por isso mesmo, perturbações na flora estão associados a várias doenças, muitas das quais nem imaginaríamos que possam ter qualquer relação com o intestino. 
Muitos artigos têm sido publicados sobre esse assunto, inclusive na mídia leiga:
  • Quando pacientes desenvolvem uma grave doença chamada colite pseudomembranosa – uma doença de alta mortalidade cuja causa é justamente alterações da flora intestinal devido ao uso excessivo de antibióticos – um dos únicos tratamentos é o transplante fecal.Você leu bem! Pega-se fezes de um familiar, passa-se em um liquidificador e se introduz através de uma sonda nasoenteral no paciente – a restauração da flora intestinal saudável cura a doença. Pacientes que receberam tais transplantes passaram a apresentar melhora de outras doenças, para surpresa dos médicos; O FDA americano já aprovou o tratamento em tempo recorde em 2013, por ser muito eficiente;
  • Pacientes com diabetes tipo 2 que recebem transplante de fezes de pacientes magros e sadios apresentam melhora na sensibilidade à insulina e nos triglicerídeos (veja aqui). No entanto, com o passar dos meses, o efeito desaparece (veremos porque adiante);
  • Doenças inflamatórias intestinais (Crohn, colite ulcerativa, cólon irritável) às vezes entram em remissão com transplante fecal.
  • Outras doenças auto-imunes (esclerose múltipla, asma, alergias, sinusite, artrite reumatoide, etc): há relatos de caso de melhora e mesmo remissão com transplante fecal.
Veja os seguintes trechos dessa reportagem de revista Ciência Hoje:
“O experimento em questão começa assim: extraem-se bactérias da flora intestinal de irmãs gêmeas – isso é feito por meio de amostras de fezes. Mas, no caso, uma irmã é magra; a outra, obesa – isso ocorre em cerca de 5% dos gêmeos. Injetam-se esses micro-organismos no intestino de camundongos livres de micróbios.
Os roedores que receberam a flora das irmãs obesas ganharam mais peso e acumularam mais gordura, apesar de terem sido submetidos à mesma dieta e igual quantidade de comida que o grupo que recebeu as bactérias das magras.¨Segue a reportagem:
“Vanessa Ridaura e colegas, da Universidade de Washington (EUA), puseram na mesma gaiola camundongos que haviam recebido as bactérias das gêmeas magras e aqueles que as receberam das obesas.
Camundongos praticam a coprofagia – ou seja, comem fezes. Com base nessa prática, os autores do estudo perceberam que, depois de 10 dias, os roedores obesos começaram a emagrecer e também tiveram o metabolismo alterado. Os camundongos ‘magros’ não foram afetados – ou sejam, seguiram magros e sem alteração metabólica.”E agora, a parte mais interessante:
“Segundo os autores, as bactérias da magreza não conseguem se hospedar em indivíduos que não se alimentam saudavelmente. Ou seja, dietas não saudáveis (por exemplo, pobres em fibras) acabam inviabilizando a flora intestinal responsável pela magreza.”
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